Memorial Petronio Augusto Pinheiro
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O AVC e a obstinação pela vida
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Como praticante de remo na juventude, Petronio tinha um perfil atlético, forte, um touro, como se diz, um atrativo agravado pela “morenice” que o fazia ainda mais atraente e belo. A mente era uma máquina que funcionava sem parar em busca de descobertas de novos conhecimentos, que transformam pensamento em ação. Entretanto, várias foram as vezes em que o cérebro o surpreendeu, obrigando-o a interromper planos e sua execução. Foram vários acidentes cerebrais, os AVCs. O obituário de seus ancestrais registra alta freqüência dessa patologia, associada ou não a danos cardiológicos. O restabelecimento, após cada AVC, era uma batalha a ser vencida onde Petronio colocava toda sua força de vontade, obstinação e até teimosia para dizer, “... vou vencer mais essa”. O primeiro susto o acometeu ainda jovem, por volta dos 50 anos, numa reunião de trabalho na sede da Federação das Indústrias, onde seguia a rotina de membro da diretoria, fazia mais de duas décadas. Naquela ocasião, os melhores serviços de pronto atendimento para acidentes neurológicos em Manaus eram as companhias aéreas.

“A perda deste amigo não tem preço”

Nesse clima de tensão, e na expectativa de um tratamento neurocirúrgico, com custo estratosférico, Petronio procurou o amigo de fé Ribamar Bentes Siqueira para levantar o recurso. Sem titubear Siqueira lançou mão de toda a sua reserva financeira e a entregou ao amigo. Indagado sobre as formas de devolução do empréstimo, Siqueira foi categórico. “Isso não importa neste momento”. Mas Petronio disse a Siqueira que a sua família não teria como pagar o empréstimo em caso de óbito, ao que o amigo prontamente argumentou. “Dinheiro a gente trabalha e ganha, o prejuízo maior será a perda de um amigo como você. Uma perda que dinheiro nenhum do mundo será capaz de suprir”. Assim foram Iclé e Petronio para o Rio de Janeiro ouvir os maiores especialistas em AVC. Superado esse momento de transtorno, Petronio passou a cuidar mais rigorosamente da própria saúde, sob os cuidados e atenção permanente de Iclé, dos filhos e do seu médico cardiologista Dr. Ronaldo Jackmonth. Mas todos os cuidados não foram suficientes para deter a provação e a adversidade. E em 1987, numa viagem ao Rio de Janeiro, onde Petronio Filho e Iêda moravam para fazer graduação, Petronio foi nocauteado por mais um AVC. “Estávamos no Barra Shopping, fazendo compras quando, ao assinar o cartão a letra saiu toda torta, o que achei estranho. Depois, ao sairmos da loja ele começou a chutar o chão, a andar puxando a perna. Senti um frio na espinha e disse que era melhor irmos para casa que ficava nas proximidades. De casa liguei para meu cardiologista e contei o caso. Disse que o levasse imediatamente para a Clinica Sorocaba. Quando chegamos lá e o médico aferiu a pressão que media 21 por 18. Ele foi internado na hora e lá ficou por duas semanas” conta Petronio Filho. Quando saiu passou ainda um mês com os filhos e a “mãe”, como carinhosamente chamava Iclé. Os membros do lado direito ficaram semi-paralisados e, para reverter este quadro, exercícios diários eram imprescindíveis. Todos os dias pela manhã os Petronios, pai e filho, saíam para uma caminhada de fortalecimento das pernas. Depois, em casa, ele tinha que tirar os 40 palitos de uma caixa de fósforos, um por um, e depois colocá-los de volta. Era para estimular os movimentos leves que haviam sido afetados. Nos primeiros dias a falta de coordenação o deixava chateado mas, dia após dia, ele foi melhorando. A fisioterapia na clínica era acompanhada de perto por Iclé. Além do carinho, que se revelava a melhor terapia, havia o incômodo – na verdade, um indisfarçável ciúme - que aparecia nos momentos em que terapeutas massageavam e exercitavam seu amado, segundo Iêda. Com essa atenção e suporte, ele se restabeleceu completamente e voltou para casa.Em julho de 1991, Iclé e Ana Paula, esposa de Rodrigo, foram para o Rio de Janeiro acompanhar Petronio numa bateria de exames. Tudo estava correndo bem até que, nos exames de tomografia, ficou constatado um aneurisma cerebral, já calcificado, resultado de um AVC certamente antigo, cuja retirada via intervenção cirúrgica foi longamente analisada pelos filhos com o apoio do Dr. Jorge Mota, que decidiram não levar adiante nem contar nada, nem para ele, nem para Iclé.

“Combati o bom combate. Terminei a minha carreira, guardei a fé”-

Janeiro de 1992 foi um ano que ficou marcado por perdas e sustos. No dia 13 falece Simões, sócio de Petronio havia mais de 20 anos. Foi um abalo para todos que conheciam a amizade que existia entre eles, mas sobretudo para Petronio que demorou a assimilar e aceitar a perda. Contam que, passados uns dias do falecimento, Petronio saiu de sua sala com um papel na mão dizendo algo como: “...preciso resolver isso com o Simões.” E atravessou o pequeno corredor que separava as duas salas quando se deu conta que o sócio, amigo e parceiro querido, não estava mais lá.

Os preparativos para a festa de 70 anos de Petronio foram cancelados. Não havia clima para celebração. A tristeza pela perda era enorme e indescritível. Foi neste ambiente que o AVC o atingiu em cheio. Ele estava fazendo exames numa clinica dermatológica e, ao final do procedimento, não conseguiu abotoar sua camisa e sua fala ficou embolada e sem sentido. Apreensiva a proprietária da clínica ligou para Iclé e ele foi internado às pressas na clínica Check Up. Era um acidente de grandes proporções e sua remoção de Manaus deveria ser imediata. Foram dias difíceis e apreensivos, pois diferente do acidente de 1987, aquele havia afetado diretamente a área responsável pela fala e leitura, exatamente duas coisas da qual Petronio gostava muito de fazer. A família Simões, com todo carinho e solidariedade, abriu seu apartamento no Rio para o longo período de restabelecimento com fonoaudióloga, fisioterapeuta e todos os cuidados necessários. A CCIL – Coca-Cola Indústrias, na pessoa de seu presidente na época, Álvaro Canal, colocou  uma equipe multidisciplinar para resolver qualquer problema. Nesses momentos, os médicos Jorge El Kadum, Jorge Mota, Lavoisier e Tadashi e enfermeiros, como Alex Moreira, foram de grande importância para ajudar a família a superar aquela situação nova e aterrorizante para todos. “Lembro que uma das fisioterapeutas chamou a mim e a mamãe e disse: existem três coisas fundamentais para o sucesso do tratamento: a parte financeira, o apoio da família e a vontade do paciente. Se faltassem um dos três dificilmente ele se recuperaria” conta Iêda. E assim tudo foi feito para que os três pontos fossem observados e cumpridos à risca. No final de dois meses, Petronio estava novamente forte, corado e disposto, mas ficou com seqüelas. Para se comunicar foram criados códigos: os 5 dedos da mão eram os filhos e quando ele queria falar algo sobre um deles, abria a mão e apontava os dedos. A Rosana era o mindinho, o Petronio o anular, a Márcia o do meio, o Rodrigo o indicador e a Iêda o polegar. A única palavra que ele nunca deixou de falar foi MÃE, a forma carinhosa que o casal havia escolhido para se chamar: Iclé chamava Petronio de pai e ele chamava Iclé de mãe. Em função da disfasia, distúrbio da palavra, devido a lesão do sistema nervoso central, Petronio se afastou da funções executivas no Grupo Simões. A parte física, porém, estava funcionando plenamente, o raciocínio estava correto e ele não podia ficar parado. Foi o período que, junto com seu motorista Clóvis e segurança Beckman, teve a oportunidade de fazer coisas que gostava e que antes tinha pouco tempo para se dedicar, como vistoriar obras. Visitar os amigos Jaime, Joacy e Edmundo além de muitos outros e ainda, a se exercitar com freqüência.

Depoimento histórico - Apesar da dificuldade de se comunicar, em novembro de 1993, na inauguração da Manaus Refrigerantes, Petronio falou de como ele e Simões escolhiam os locais onde as fábricas seriam construídas e da amizade deles.

Apesar de todos os cuidados e esforços, manter a pressão estável era um desafio. Foi assim que, em 1996, é acometido de mais acidente, desta vez em casa. “À noite mamãe estava ansiosa, agoniada... ela achava que o “pai” não estava bem, mas não sabia explicar porque. Fomos dormir e de madrugada ela me ligou – Iclé e Petronio moravam no 11º andar do Walderez Simões e Iêda e Dodó no 10º andar – pedindo para ir ver como ele estava dormindo. Ao chegar papai roncava muito alto. Fui tentar acordá-lo, coisa que ele não gostou. Ficou bravo e disse: estou bem, estou bem. Pode ir. Com essa resposta fui para casa. Pela manhã antes de ir para o trabalho passei lá e ele já estava acordado, mas mamãe continuava inquieta. Dei um beijo e fui trabalhar. Passados 40 minutos mamãe ligou pedindo para voltar às pressas e quando cheguei à casa dela papai estava deitado na cama soltando um urro pela boca, um barulho estranho e percebi que a língua parecia enrolada na boca. Foi um susto, um desespero. Pulei em cima dele batendo no coração e mandei chamarem o Dr. Jackmont que morava em frente ao prédio. Ele chegou minutos depois de pijamas e fez os primeiros socorros em casa, para depois transferi-lo para a Clínica. 24 horas depois, mesmo estando bem melhor, a família decidiu levá-lo para novos exames com seus médicos que verificaram que, em função do pouco uso da fala, os tecidos da garganta estavam atrofiando e por isso ele havia se engasgado e tido falta de ar. Desta vez ficaram apenas poucos dias e logo ele voltou para casa”.

“EM CADA CANTO UMA DOR, DEPOIS DA BANDA PASSAR, CANTANDO COISAS DE AMOR”

Em 97 Petronio completa 75 anos e a família faz uma linda festa em comemoração, reunindo os familiares e amigos. Ele estava muito alegre por reencontrar as pessoas e fazia questão de tirar foto com cada convidado que chegava. Os filhos fazem uma homenagem ao pai, parodiando a música A Banda, de Chico Buarque. Em julho daquele ano, Petronio e Iclé decidem ir ao Festival de Parintins, ver o Boi Caprichoso, que aprenderam a torcer por influência da família Carvalho, pais do Dodó, marido da Iêda. Alugaram o confortável iate Umuarama e partiram num clima de muita alegria e festa o casal, Petronio e Rossi, Iêda e Dodó, Paula e Rodrigo, Clio, irmã de Iclé, e Júlia Alcantarino uma amiga da família.

A chegada em Parintins se deu no dia 27, dia da Festa dos Visitantes, que havia caído num sábado. À noite, parte do grupo foi para a festa e Iclé, Petronio, Clio e Julia, que era adventista e por isso guarda os sábados, ficaram no barco jogando cartas. Petronio foi deitar e as três continuaram jogando. Por volta das 22h00, Iclé foi levar um medicamento e percebeu que Petronio não estava bem. Novamente sua respiração ocorria de forma alterada. Imediatamente deu sinal de alerta para as pessoas que haviam ficado no barco. Júlia, que é enfermeira, providenciou os primeiros socorros e o fez respirar novamente. Mas era preciso um aparelho de oxigênio. Iclé envia Clóvis e Beckman para “terra” a fim de encontrar os que estavam na festa. E de lá partem para os hospitais de Parintins em busca dos equipamentos necessários e depois um avião para voltar para Manaus. De Manaus, Petronio Filho o leva de UTI aérea para o Rio de Janeiro onde Petronio é internado novamente. Os médicos avaliam que é necessário fazer uma traqueostomia. Os cuidados agora precisam ser maiores. De volta a Manaus, seu quarto no apartamento do edifício Walderez Simões é transformado num quarto de hospital com tudo que fosse necessário para oferecer-lhe conforto e segurança. Uma equipe de enfermagem foi montada para estar constantemente ao seu lado: Júnior, Zé Carlos, Marlelson foram alguns dos que fizeram parte desse time empenhado em ajudá-lo no que fosse preciso. Novamente nenhuma enfermeira foi aceita na equipe, pois Iclé não permitia que outra mulher tocasse seu amado.

A única angústia, ficar longe dos seus...

Apesar de todos os cuidados e o carinho dos que o cercava, a saúde foi-se deteriorando a cada dia e assim, em novembro de 1998, um AVC hemorrágico o levou a morte cerebral, que culminou em 21 de novembro daquele ano com seu falecimento. Ninguém lembrou de ter ouvido Petronio reclamar de coisa alguma ou fazer de sua dificuldade de movimento ou comunicação, motivo de auto-piedade. Sua única angústia era ficar longe dos seus nos dias prolongados de internação por não poder voltar pra casa, principalmente estar ao lado de Iclé, sua referência, razão de ser e porto seguro. À medida que os anos avançavam o carinho de um com outro crescia em graça, beleza e intensidade. Mesmo com a perda do uso das cordas vocais, o que lhe retirou o timbre característico da voz marcante que Deus lhe deu, a comunicação não se alterou, pois desenvolveu outros instrumentos talvez mais efetivos, de interatividade e cumplicidade amorosa.

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    2010

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