Memorial Petronio Augusto Pinheiro
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Anos 50 - Os heróis da resistência
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Além do mestre, patrão, sócio e amigo Cosme Ferreira, toda uma geração de pensadores e empreendedores se mobilizou e sacudiu o Amazonas a partir dos anos difíceis que a Grande Guerra provocou. A segunda débâcle da borracha, provocada com a reabertura dos mercados asiáticos, produtores de látex, e a debandada dos americanos e de seus dólares, deixou um rastro de frustração e penúria. Era preciso criar e recriar soluções e reflexões e retomar a caminhada.

Mário Expedito Neves Guerreiro e Moysés Benarrós Israel, são dois heróis remanescentes desse período, dois lordes, sábios e refinados, ciosos de pertencer à condição manaó. Eles são os autênticos heróis da resistência. Com eles, Petronio teve uma convivência muito próxima, tanto na Associação Comercial, como na Companhia Nacional de Borracha, Companhia Brasileira de Plantações e na Federação das Indústrias do Estado do Amazonas, de cuja fundação Petronio participou e foi eleito o primeiro-secretário, o papel de executor e articulador das propostas e apostas de desenvolvimento regional.

Com Mário Guerreiro e Moysés Israel consolidou-se o comprometimento e afeição pelo Amazonas, comum àquela geração. Um acervo humano, vibrante, gratificante da resistência e obstinação pelo desenvolvimento, modernização e civilização econômica e sociologia florestal. A meta era resgatar a dignidade amazônica, promover nossa gente ao patamar cidadão de melhor qualidade de vida e partilha. De um novo empreendedorismo na floresta, bem diferente dos investidores estrangeiros e dos coronéis do fausto. Suas atitudes revelavam comprovações inequívocas de que vale a pena apostar nas promessas de prosperidade e eqüidade social a partir do bioma amazônico.

É inadiável retomar a memória dos grandes empreendedores dos anos 50, em diante, após a segunda débâcle do Ciclo da Borracha, que as razões estratégicas da II Guerra Mundial quase nos fizeram emplacar. E visitar, ao lado deles, remanescentes dessa época, os esforços para viabilizar os negócios da floresta, antes do advento da Zona Franca de Manaus. Uma luta teimosa e, de tão profícua, atual. Eles estavam lá e fizeram história e memória de quem optou batalhar na linha de frente, com a prerrogativa de quem pode apontar caminhos. Seus descendentes, alunos, colaboradores estão aí, e têm Mário Guerreiro e Moysés Israel disponíveis a todos que quiserem entender que esta História teve a participação decisiva de heróis extremamente recatados, porém obstinados, e especialistas em comprometimento e fé nas promessas da floresta.

REFINARIA NA FLORESTA

Essa economia baseada nos insumos regionais, defendida por Petronio Pinheiro e sua geração, foi a base das 40 empresas que propiciaram as condições e demanda de uma refinaria de petróleo em plena floresta, inaugurada em 1956, com a presença do então presidente da República, Juscelino KubitschekLá estava presente, Petronio Augusto Pinheiro, prestigiando as respostas que a Amazônia dava ao país e o seu amigo Moysés Israel, este também fez parte de um grupo de amazônidas obcecados por empreender. Um grupo de apaixonados e destrambelhados, aptos a soerguer no muque, uma refinaria, em 1956, sem ajuda de guindastes, no coração da floresta. É a saga dos judeus na Amazônia, de que fala Samuel Benchimol, em seu Eretz Amazônia. Hoje, pra não perder o costume, Moysés acredita nas promessas do Centro de Biotecnologia da Amazônia, dos quais é fundador e conselheiro de primeira hora, e tem gás e energia para estimular, com sua habitual persistência, o pupilo Antônio Silva, à frente da Federação das Indústrias, na aposta de diversificação e interiorização da economia, com o polo mineral e cloroquímico. “Temos mais petróleo e gás na Amazônia do que as perspectivas mais otimistas possam estimar”, diz com convicção e olhar brilhante de vaidade amazônica e satisfação nativa.

AS FIBRAS DOS CABOCLOS

Nos anos 50, Petronio Augusto Pinheiro participou ativamente das diversas iniciativas que buscaram soerguer a economia regional, além da borracha, cujo cultivo racional, nos moldes da Malásia, motivaram grandes iniciativas da Companhia Nacional de Borracha, da qual já era um dos colaboradores graduados. Ele esteve presente na implantação do Ciclo das Fibras, com beneficiamento da juta e da malva, na perspectiva de consórcio tecnológico com outras fibras regionais para produção industrial de sacaria e outras utilizações. Na inauguração da BrasilJuta, em 1951, quem cortou a fita foi Getúlio Vargas, prestigiando o projeto de Mário Guerreiro e Adalberto Vale, que acabara de instalar o lendário Hotel Amazonas. A BrasilJuta era uma fábrica que gerou na ocasião 3.000 postos de trabalho produzindo fibras, com direito a creche e atendimento médico e odontológico, inédito para os padrões assistenciais da época.

O PAPEL DO INPA 

O maior desafio daquela geração era voltar-se para a Amazônia, conhecer suas potencialidades e desafios e oferecer uma resposta ao Brasil e ao mundo. A valorização da Amazônia devia fundamentar-se na sua ocupação e conhecimento, daí a importância da criação do INPA. Sua sede inicial estava situada na Rua Guilherme Moreira, ao lado do escritório da Companhia Nacional de Borracha, onde Petronio atuava e testemunhava o quanto o projeto inicial do Instituto foi ambicioso e abrangente.

A precária condição da região, na época, não oferecia atrativos para a fixação de pessoal, dos poucos pesquisadores que para aqui vieram, atraídos pela criação do INPA, a maioria retornou pouco tempo depois. Djalma Batista, preocupado com a continuidade das pesquisas, manda preparar o pessoal em cursos superiores lá fora, já que não havia a Universidade do Amazonas. No ano de 1961, o problema cruciante em Manaus era a escassez de energia elétrica, restringindo as atividades do Instituto de Pesquisa.

Com a nomeação, em 1965, de Arthur Reis para Governador do Estado, o INPA passou a ter cobertura estadual. Publica uma nova série, Caderna revista Amazoniana, com o Instituto Max-Plank. Arthur convida o arquiteto Severiano Mário Porto, vizinho de prédio no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, para trabalhar em Manaus. Gilda Porto  e o médico sanitarista Heitor Dourado, foram convidados para gerenciar doenças tropicais da região. Ambos vão encontrar a família Baraúna Pinheiro numa história de amor e comunhão familiar inesquecível.

Nos anos 70, apesar das medidas ditatoriais de ocupação da Amazônia, havia dificuldades de recursos e ausência de uma política própria de pesquisas especiais para a região, "faltava uma consciência de que a Amazônia precisava ser vencida". Em 1975, finalmente estabelece convênio com a Universidade do Amazonas. Em 1980, em convênio com a Eletronorte, desenvolve o Projeto Tucuruí e inicia os estudos para a construção da Hidrelétrica de Balbina, com os protestos da comunidade política e ambientalista local. Começa aí a penetração do Instituto por outras vozes, que realizam um processo de democratização interna no órgão, e atualmente, o INPA parece ter alcançado o difícil diálogo com a comunidade universitária e científica local.

“MULATA EU QUERO SER POETA..."

São poéticas, plenas do romantismo que descreve a erudição de um espírito apaixonado, as cartas de Petronio a Iclé, antes e depois do casamento, uma poesia transformada em vida, devoção e cumplicidade por quase quarenta anos. O vínculo em forma de pacto, intencionalmente infinito, até que a morte os surpreendeu. Essa poesia do discurso amoroso já se ensaiara nos prelúdios de seus oito anos, na célebre carta à Tia Mulata, onde revela todo seu amor e desejo de aperfeiçoar sua poesia. “Mulata eu quero ser poeta e começar fazendo um versinho para você e seria assim a Mulata é uma borboleta bonita e delicada.”

Essa semeadura poética ganhou força e estímulo na convivência diária com humanismo poético de José Ribamar Bentes Siqueira e os arroubos literários em defesa da Amazônia nos versos de Cosme Ferreira. Petronio não ficaria indiferente aos reflexos na vida social de Manaus na década de 50, com o surgimento do Clube da Madrugada, criado ao amanhecer do dia 22 de novembro de 1954, na praça Heliodoro Balbi, mais conhecido como praça da Polícia. Celso Melo, Farias de Carvalho, Fernando Colyer, Francisca Ferreira Batista, Humberto Paiva, João Bosco Araújo , José Pereira Trindade, Luiz Bacellar, Moacir Andrade, Saul Benchimol, Teodoro Botinelly... foram alguns dos signatários dessa associação informal para celebrar a aurora de um novo dia, novos tempos para a cultura do Amazonas, para combater a melancolia do atraso. O apelo por reação em favor da mudança era o motor de várias iniciativas em diversos setores do tecido social.

O Clube da Madrugada incorporou a presença e a militância de outros poetas e literatos empenhados em sacudir a mesmice cultural e ao autoritarismo escolástico da Academia Amazonense de Letras, que não dava vez aos jovens. Jorge Tufic, Alencar e Silva, Carlos Gomes, Arthur Engrácio, Luiz Ruas, Erasmo Linhares, Élson Farias, Astrid Cabral, mais tarde, nos anos 60 em diante, tiveram a ajuda e a presença sistemática e solidária de Petronio Augusto Pinheiro, com o patrocínio discreto porém significativo, de concursos literários da entidade inusitada, de acordo com o depoimento de Moacyr Andrade, nosso maior artista plástico de todos os tempos.

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